quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Race Report: I Maratona Rock 'n' Roll Lisboa, 2013

Tipo: Atletismo
Distância: 42.2 km (Maratona)
Sapatilhas: Saucony Kinvara 4

Tenho de admitir uma coisa: não planeava fazer esta maratona e, como tal, não a preparei. Uma coisa é certa, alguma coisa havia de sair e, na pior das hipóteses saía eu estrada fora. Felizmente isso acabou por não se verificar. Meti na cabeça que correr uma maratona era correr um quilómetro quarenta e duas vezes e, por isso, seria quilómetro a quilómetro. A verdade é que pensava correr a meia-maratona mas incentivar os outros sem dar o exemplo não cabe na minha cabeça e muitas foram as vezes que  motivei amigos (especialmente dos Village Runners) a fazerem uma maratona que agora, havendo essa oportunidade, não poderia deixar escapar. Inscrevi-me para a prova faltando pouco mais de um mês e meio para a mesma com a sensação que mesmo não treinando iria (e tinha de) chegar ao fim, pelo simples motivo de o querer fazer. Ponto.

O pequeno-almoço
O meu pequeno-almoço habitual antes de uma prova, especialmente se for longa é sempre o mesmo: frutos secos com banana. Adicionalmente posso colocar mel, mas não me apeteceu. O porquê deste pequeno-almoço é simples: com os frutos secos ingerem-se muitas calorias sem ser necessário comer muito, deixando o estômago satisfeito mas não cheio e garantindo uma boa dose calórica para o esforço que aí vem. Ter o estômago cheio antes de uma prova não é muito aconselhável.


A prova
O início foi calmo e assim o deveria ser. O que sempre me disseram e acabei por constatar, é que o mais difícil a início é ter cabeça para conter o ritmo no primeiro terço da prova (até ao quilómetro 15, mais ou menos), porque vamos confiantes e ainda nos sentimos bem, só que por vezes esquecemo-nos que ainda temos mais de duas dezenas de quilómetros pela frente. Outra coisa que me disseram é que a prova começava realmente ao quilómetro 30 (tens toda a razão Paulinho).


O grupo do marcador de pace das 3 horas
Segui entre os 4:05 e os 4:15 min/km até apanhar o marcador de pace* das 3 horas e fui com este. O grupo que seguia junto deste marcador de pace era numeroso, seríamos à volta de 20 atletas e ia-me a sentir demasiado bem. Chegados os 12km (sensivelmente) decidi que tinha de ir, e fui. Lembro-me que na altura pensei "ainda te vais dar mal", mas a teimosia é uma coisa que abunda em minha pessoa.


O grupo de dois elementos ao qual me juntei depois da fuga
Fui na minha até encontrar um grupo de dois elementos e com eles fiquei. Pelo caminho ia aproveitando os abastecimentos para beber água e perguntar se algum dos meus companheiros de circunstância também queria. Fui também usando os 3 geles que levei comigo de forma a ir colocando algumas calorias de volta no organismo, mas devo dizer que não sou amante de geles: primeiro, porque sabem mal, depois porque o meu estômago não é fã, mas quando tem de ser, tem de ser!
Comecei a notar que um dos meus dois companheiros começara a quebrar, foi então que eu e o outro elemento decidiu seguir. Curiosamente, este companheiro que seguiu comigo levava um fato de triatlo (gente rija esta, a do triatlo).


O grupo dos Quenianos Brancos
Seguia eu com o meu companheiro do triatlo, quando de repente, a um ritmo avassalador seguia um grupo de quatro elementos que em tudo eram parecidos com os Quenianos, menos na cor. Este grupo de quatro magricelas com uma passada impressionante começou a impor-se sobre nós e, sem mais nem menos, fomos atrás deles. Devo confessar que se não fosse o companheiro do triatlo, eu ter-me-ia ficado com a passada que seguia até então, mas como este se decidiu colar, eu fui também. Foi a melhor coisa que fiz.
Entrei neste grupo, ao quilómetro 28 e depressa passei de um pace médio de 4:08 min/km para 3:58 min/km. Pela primeira vez eu estava realmente a gostar de correr a maratona: seguimos pela Avenida 24 de Julho até ao Terreiro do Paço, aproveitando sempre os abastecimentos para “roubar” uma ou duas águas para mim e para o grupo. Foi aí que senti o momento alto desta maratona com as pessoas que assistiam à prova no Terreiro do Paço a se aperceberem que seguíamos a um ritmo realmente bom (para amadores). Nessa altura perdi a conta a palmas, gritos de incentivo, sorrisos e todo esse tipo de coisas que toda a gente gosta de sentir durante a prova. Rapidamente o grupo ficou contagiado pela motivação e energia que o público passou e chegou-se aos 2:47 min/km de pace em plenos 31km de prova. Eu olhei para o GPS e ri-me para dentro, ao mesmo tempo pensava que com um ritmo daqueles, não tardaria muito até que alguém começasse a quebrar, o que seria uma pena pois neste tipo de desporto não existem inimigos: existem companheiros de circunstâncias e até certa altura só queremos que todos cheguem ao fim no melhor tempo possível, pelo menos é assim que eu penso e foi isso que senti.
Tal como previa, começaram as quebras: o meu amigo do triatlo já havia quebrado antes do Terreiro do Paço e agora era a vez de dois dos “Quenianos Brancos” começarem a quebrar. Eu segui com os outros dois que restavam. Fomos juntos por dois quilómetros e foi aí que tive dificuldades. Só sei que estes dois elementos que seguiam à minha frente corriam como tudo e, em pleno quilómetro 36 adotei uma técnica inédita para mim: fechava os olhos durante uns 5 segundos e acelerava, na tentativa de ficar com eles. Repeti isto um sem número de vezes, ao estilo do “quero comer a sopa, mas não gosto, então vou fechar os olhos para não sentir o sabor”. Quase que resultou! Ou não! Quebrei e passei de um pace abaixo dos 4 min/km para 4:30 min/km.


Só mas nunca abandonado!
Do quilómetro 36 ao 42 foi uma luta. Foi aí que tive de falar muito para dentro, concentrar-me, convencer a minha perna esquerda que teria de ser mas a “corna” não me queria dar ouvidos. Confesso, estes últimos quilómetros foram dolorosos porque abusei quando entrei no último grupo, mas a verdade é que se não o tivesse feito, ficaria ruído por dentro, arrependido e chateado comigo mesmo. Custou, mas valeu a pena. Nestes últimos 6 quilómetros penei mas nunca corri acima dos 4:30 min/km, nunca parei e adorei cada penoso e doloroso metro. Comecei a recuperar quando comecei a ver o grupo de amigos dos Village Runners que já tinham terminado a meia-maratona (que decorreu em simultâneo) e quando vi a minha namorada (a minha coisa boa) e o meu primo (que é como um irmão para mim), que também tinham ido fazer a meia-maratona. O meu primo gritou “Abaixo das 3 horas!” a minha namorada, “vai chouriço, pareces uma menina a correr!” e foi aí que fiquei ofendido e comecei a correr mais rápido (mentira).
No final cruzei a meta com um tempo de chip a rondar as 2 horas 57 minutos e 30 segundos, na primeira vez que fiz a maratona. Fiquei em 36º da geral (contando com os Quenianos e com as Quenianas), 16º no meu escalão (e não é que os Quenianos eram todos do meu escalão?). Adorei, quero repetir mas agora quero treinar para a maratona!

Link do Garmin no Strava: http://www.strava.com/activities/88159732


Orgulho
Estou muito orgulhoso da minha Anastasiya por ter terminado a meia-maratona e o ter feito “nas boas” num tempo igual à sua melhor marca na distância. Estou muito orgulhoso do meu primo Paulo que, mesmo tendo a clavícula partida, fez a meia-maratona em five-fingers (ele que ia para fazer a mini-maratona por ter partido a clavícula e na curva que separava estas duas provas enganou-se de propósito). Estou muito orgulhoso dos restantes Village Runners que fizeram a meia-maratona, em especial nos que se estrearam (grande Traquino). Estou muito orgulhoso de todos os Village Runners que fizeram a maratona (todos pela primeira vez) e aqui tenho que realçar nomes: Ivo Roque, Aníbal Nobre, Cristina Pereira, Pedro Nobre, Raquel Carvalho (primeira portuguesa a chegar!!) e Pedro Rodrigues! Muito obrigado a todos vós por existirem e me motivarem.

Já agora uma palavra à organização: execelente. Já havia feito a meia maratona Rock 'n' Roll em 2011 e admito que foi a melhor que já fiz. Bandas a tocar ao longo do caminho, pontos de hidratação bem colocados e concerto dos Xutos e Pontapés no final, foram, para mim, as mais-valias desta prova, juntando a beleza do percurso.










*marcadores de pace, são os indivíduos que vão neste tipo de provas com uma bandeira às costas referenciando o tempo em que estes estimam terminar a mesma. Neste caso vi para 3 horas até às 4 horas de 15 em 15 minutos (mas podiam haver mais).





















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